“Nunca consegui ser uma pessoa sem vergonha alguma. Uma pessoa que mostra cem por cento de si, nunca consegui ser um livro aberto. Sempre tive medo, e quando eu disse que era um livro aberto, colei páginas que eu não queria que fossem lidas e relidas. Não queria que me martirizassem, pois me arrependo de boa parte do que fiz e do que deixei fazer. Uma vez disseram-me que não havia olhos vermelhos no canto de meu guarda-roupa, e nem pequenos monstros de mãos menores ainda embaixo da minha cama. E eu não gostei de saber que via coisas inexistentes, e guardei tudo o que passei a ver, pra mim. Se vejo amor em tudo, ninguém sabe, não dou a liberdade pra ninguém de dizer se o que vejo é certo, errado ou fantasioso. Se sinto saudade, não conto, e sim minto. Digo que já não sinto nada pra ninguém julgar mais nada que venha de mim. Passei a me fazer mais arrogante do que realmente sou, mais ignorante, passei a transparecer uma pessoa fechada em um mundo próprio. Poucos são os que sabem que eu crio pontes entre mundos. Viajo na penumbra sobre todos os mundos possíveis, e me resguardo no meu, novamente, para nenhum individuo desconfiar de minhas viagens proibidas por lei. Pela minha lei. Nunca consegui ser cem por cento para todos porque nunca aceitei um terço de mim.